Novela - Marina! Capitulo 1 - Amor e Saudade

Novela - Marina! Capitulo 1

Escrito por Diana Polizzo | 953
Novela - Marina! Capitulo 1



Eram quase vinte e uma hora quando desci do ônibus a caminho de casa. A padaria ainda estava aberta, então comprei duas pequenas barras de chocolate e um pacote de biscoito salgado, daqueles amarelos cheios de sal. Eu tinha a certeza que o nível de colesterol no meu sangue estava altíssimo, e que, daqui a alguns anos, seria surpreendida por um infarto agudo. Mas não me importava. Eu detestava ir a médicos.

Era uma sexta-feira e a praça do bairro estava movimentadíssima. Haviam os casais, nos cantos escuros, os aposentados, no portão de casa e os alcoólatras, nas mesas dos bares. Haviam também os rapazes, magnetizados por um ou outro carro potente de algum amigo bem sucedido. Faziam da rua um verdadeiro baile, com o radio do carro em volume máximo. O Bruno fazia parte deste último grupo.

Eu o conheço desde pequena, mas nunca trocamos uma palavra sequer. Na escola, eu era a menina feia que sentava próxima à professora. E ele, o garoto peste que colocava apelidos em todo mundo. Passei uma eternidade alheia a sua existência. Passados quase vinte anos, sai para comprar pão. Então o vi, sob uma gostosa luz matinal, de um jeito que nunca tinha visto antes. Os traços faciais, que até então não despertavam nenhum interesse, passaram a provocar uma sensação estranha - de êxtase, medo e excitação. "Ele nunca vai querer nada com você" - pensei. "Mas espera ai, desde quando eu quero alguma coisa com ele?"

Nunca havia me relacionado com alguém. Rapazes, para mim, eram seres de outro mundo. Eu os odiava, mesmo cercada por eles. Há cerca de dois anos trabalhava como assistente, em uma construtora. Observava todos; desde o mais jovem ao mais velho, do mais pobre ao mais rico. Eram diferentes quanto ao gosto musical, modo de se vestir e até quanto a forma de falar. Uns não sabiam nem como iniciar uma conversa. Outros falavam sobre política e filosofia. Mas todos sabiam apreciar as curvas femininas. Os cabelos, o perfume e a forma de sentar de uma mulher. Invisível, eu observava como uma analista.

Quando cheguei em casa, deparei-me com minha mãe em seu habitat natural: O sofá. Mamãe adorava assistir novelas. Às vezes, tinha a impressão que vivia em um outro mundo; um mundo em que homens e mulheres se apaixonavam a primeira vista, e que se amavam intensamente, mesmo após todas as maldades da vilã. Mamãe vivia em um mundo novelesco, alheia até a bacia de pipoca em sua frente. Sentia pena, mas sabia que, dali a alguns anos, seria eu quem anularia minha vida real em busca de uma vida virtualmente perfeita.

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