Longe de casa longe dos pais! Capitulo 25 - Amor e Saudade

Longe de casa longe dos pais! Capitulo 25

Escrito por Diana Polizzo | 641
Longe de casa longe dos pais! Capitulo 25


- Maria Clara Oliveira!
Minha hora havia chegado. Restavam apenas cinco candidatos no anfiteatro. Todos exaustos pela longa espera (e pelo dia estressante e cansativo).
Havia faltado ao trabalho naquele dia. Passei os últimos dias ensaiando e repassando o texto. Aquele era o meu momento, o motivo pela qual havia passado por tudo aquilo: Brigar com meus pais, sair de São Paulo, vir ao Rio, aceitar um trabalho explorador e humilhante. Eu tinha que passar. Senão, todo aquele esforço iria de água a baixo! Estava nervosa e aflita. Tentava controlar a ansiedade, respirando fundo. Nas primeiras cadeiras, a banca estava posicionada: Quatro experientes profissionais, que decidiriam ali o meu sucesso ou o meu fracasso.
- O que você preparou para hoje, Maria Clara? – perguntou uma das juradas.
- Um texto de Nelson Rodrigues... “Uma mulher séria”- A vida como ela é...
- O palco é todo seu. – disse outro jurado.
Respirei fundo. Soltei meus braços, minhas pernas e me apropriei de todo o palco. Dominei os jurados:
“Esse negócio de trair o marido não é comigo! Acho muito feio! Ela devia ter mais vergonha naquela cara! Então, isso é papel? Uma mulher casada, com filhos! E até me admira! (...) Fala baixo? Por quê? Bolas pra você! Bolas pra vizinhança! Mulher igual à mim, pode haver... Mas séria, não... Duvido! (...) Os homens são muito burros... Não sabem dar valor à uma mulher honesta! Só te digo uma coisa: Devias dar graças a Deus de teres uma esposa como eu... Não sou de muito chamego, de muito agarramento, mesmo porque tudo isso é bobagem. Mas nunca te traí. Compreendeste?”
Os jurados se entreolharam. Conversavam baixinho, faziam anotações. Comecei a sentir novamente uma imensa aflição. Meu intestino revirou-se. Meu coração batia acelerado.
Um deles virou-se para mim, pedindo para que eu me sentasse no palco. Os outros candidatos me olhavam, também aflitos. Senti muito medo.
- Maria Clara... Conte-nos mais sobre você. - Perguntou o jurado mais velho. Senti uma pontinha de esperança.
- Sou Clara, tenho 19 anos... Vim para o Rio há pouco mais de seis meses. Tenho o sonho de entrar em uma escola de teatro e seguir a carreira de atriz...
- Sério? E por que o teatro? – Outro jurado me perguntou, de forma acolhedora. Comecei a me acalmar.
- Sempre gostei, desde criança. Meus pais são professores, e sempre me levavam para assistir as peças infantis... E eu via os atores mudando de roupa... Uma hora se tornavam uma coisa e logo após... outra! Era como se eu descobrisse outro mundo... Um mundo diferente, desconhecido pela pláteia... As pessoas tinham os olhos voltados para uma coisa... Mas desconheciam completamente o que ocorria quando tudo aquilo se acabava... Quando as cortinas se fechavam e as luzes se apagavam... Nossa vida é assim... Tentamos seguir uma carreira brilhante, ter uma vida perfeita e uma família de comercial de margarina. Mas lá no fundo, lá no nosso íntimo, desejamos outra coisa para nós mesmos. Alguns seguem seus sonhos e pagam o preço por isso. Outros permanecem numa eterna encenação... Atraem os olhos dos espectadores, eternamente, sem nunca saírem de seus personagens.
- E o que você deseja para sua vida?
- Desejo ser feliz, independente das pessoas acharem que o que farei é certo ou errado... Quero, no futuro, fechar os olhos e perceber que fiz a escolha certa.
- Acha que está fazendo a escolha certa?
Pensei por alguns instantes.
- Sim...
- Tem certeza...?
Pensei por mais alguns segundos.
- Você é muito nova, e tem um futuro inteiro pela frente...
- O meu futuro é agora! – disse.
Eles se entreolharam. O mais velho tomou a palavra.
- A personagem que você escolheu é magnifica. É carregada de pré-conceitos, porém, anula-se diante de sua sociedade. Ela diz uma coisa, mas é outra! Você atraiu nossos olhos para o que ela é, porém, escondeu-nos do que ela pensa!
- Você tem voz e presença de palco. Mas ainda é muito imatura para captar essa subjetividade. Acho que, primeiro, precisa captar a sua própria subjetividade. Como disse... Há certas coisas que só são apreendidas com os erros... Você é nova, e precisa errar para poder amadurecer! – disse outro jurado.
- Clara... O que estamos tentando dizer é que, infelizmente, você não foi aprovada!
Aquelas palavras caíram como uma bomba.

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