O Misterio - Amor e Saudade

O Misterio

Escrito por Alberto J. Grimm | 2407
O Misterio


O PROBLEMA DAS PALAVRAS É QUE MUDAM DE SIGNIFICADO CONFORME SEJAM OS OUVIDOS QUE AS ESCUTAM...


Andando por aquelas ruas desertas, tarde da noite, ele percebeu que não estava sozinho. Por um instante ficou imóvel para escutar aquilo que julgava ser passos, enquanto seus olhos vasculhavam à sua volta em busca de vultos ou movimentos estranhos. Como não viu nada, pensou ser coisa de sua imaginação.

Começou outra vez a caminhar, dessa vez mais lentamente e, uma vez mais, julgou ouvir passos que não eram os seus. Encostou-se na parede e ficou sem respirar por um momento. Isso o permitiria aguçar os sentidos e ouvir com mais clareza. E nada, apenas o incrível silêncio da noite. Sua mente já começava a trabalhar com muitas possibilidades.

Era como naquelas horas quando se escuta um barulho qualquer e sons estranhos parecem se intrometer no meio. Lembrou de uma explicação que ouvira sobre isso, disseram: “As palavras quando são pronunciadas, acabam por criar entre elas, quer dizer, no intervalo entre uma e outra, sons inexistentes...” Bem que podia ser aquilo.

Depois ele pensou: “Quem se interessaria em seguir-me no meio da noite?” Estava Claro que aquilo era coisa de sua mente, apenas mais uma de suas brincadeiras sem explicação, ou graça. Lembrou então do dia que acordara em meio a um grande barulho, onde levara um susto tão grande, que ao invés de correr da cama em direção à porta, correu em direção à parede. Simplesmente ficara desorientado, sem saber se era manhã ou noite, ou onde estava, ou se tinha um nome.

Depois de se chocar contra a parede, ele chegou a duvidar se realmente existira o tal barulho, ou não fora uma invenção de sua mente. Mas agora era diferente, pois estava bem acordado. Mas sua imaginação já iniciara um processo irreversível, de criar as mais estranhas possibilidades para explicar aqueles supostos passos que escutara. Este era um grande problema, uma vez que ela sempre criava coisas que não existiam, e até que tudo ficasse esclarecido, nem ela desistiria da busca, nem ele deixaria de ter medo.

Ele pensou sobre isso, no porque da mente inventar coisas que parecem ser de verdade. “Deviam explicar isso na escola”, comentou tentando distrair-se. Mas, na escola só explicavam coisas bobas, que de nada serviriam para livrá-lo da sensação de pavor naquele momento. De que lhe serviria, por exemplo, saber naquele instante, que um triângulo possui três lados, ou que a lua é o satélite da terra?

Olhou para cima e viu dezenas de pontinhos brilhantes, que chamavam de estrelas, e estes mais pareciam rir de sua incapacidade em vencer o próprio medo. Ali, naquele espaço inalcançável, tudo parecia tranquilo, e a existência dos seus problemas, da sua angústia em não saber resolver aquela questão, nada, para aquela imensidão, significava.

Escutou ao longe os latidos dos cachorros na noite, que pareciam combinar entre si, quando deviam iniciar e parar a latumia, na maioria das vezes sem motivo algum. Bastava um começar, e logo os outros o imitavam, como se aquilo fosse, entre eles, uma conversação à longa distância. De repente até que podia ser mesmo.

Como estava numa rua principal, andou mais um pouco e entrou num beco. Ali permaneceu quieto e oculto pela escuridão, enquanto aguardava a passagem do seu suposto seguidor. Depois pensou se não seria pior, pois ao passar diante do beco, ele com certeza o veria na hora. Escondeu-se atrás de uns sacos de lixo que estavam ali próximos e lá permaneceu, enquanto sua mente fazia de tudo para atormentá-lo, com suas ideias e especulações mais bizarras.

Do ponto onde se encontrava, podia ver um pequeno trecho iluminado da rua principal, como se fora uma janela. Então escutou os passos, e como estava imóvel, respirando a longos intervalos para não atrapalhar sua audição, aquele barulho de modo algum podia ter como origem ele próprio.

Se ficou aliviado em saber finalmente que os ruídos de passos não era uma coisa de sua imaginação, logo seus pensamentos, como se fosse um conselheiro cruel que o detestava, iniciaram um novo processo para tentar explicar o que viria a seguir. “Se pelo menos eles se aquietassem, ajudariam tanto...”, se referiu amargurado, aos seus pensamentos.

E à medida que os passos se aproximavam da entrada do beco, mais a sua mente brincava de torturá-lo com as mais estranhas e horripilantes fantasias. Observando melhor, percebeu que em meio à enxurrada de pensamentos, que brigavam entre si por um pouco de atenção, nenhum havia para motivá-lo, para lhe dar ânimo, mas apenas para dar-lhe desânimo, aflição, e cada vez mais medo.


Viu uma sombra se aproximando lentamente da entrada do beco, e seu coração disparou, enquanto já imaginava em que direção deveria correr para escapar do perigo. Mas, de repente, a poucos passos da entrada do beco, a sombra projetada no chão, parou de mover-se e ali permaneceu como de vigília. De olhos fixos, ele observava a sombra para ver esta se movia, e foi nesse momento que aconteceu um verdadeiro milagre.

Ele descobriu que aquele beco era onde ficava a sua casa. Lembrou ao sentir o peculiar cheiro de lixo sobre o qual sua mãe dizia sempre: “Não é todo mundo que tem o privilégio que nós temos. Enquanto outros precisam andar muito para encontrar um lixo, nós já moramos em frente a um de primeiro mundo”. E animado ele viu o buraco onde morava, e entrou lá sossegado.

Afinal de contas, nunca se sabe, aquilo bem que podia ser um Gato, o pior pesadelo de um Rato.

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